Tá na moda odiar, tá na moda não ouvir o outro (parte 2)

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Na coluna passada, iniciou-se a discussão acerca da falta de diálogo que perpassa o debate político nos tempos de redes sociais. Demonstramos uma preocupação com o papel dos algoritmos nessa construção de estreita e limitada visão de mundo, que se cria nesse contexto.  Assim, ao transitar em redes sociais, acreditamos estar sempre certos, ou seja, não há espaço para o contraditório e cada vez menos possibilidades de estabelecer sínteses de pensamento, algo tão vital para o amadurecimento discursivo do ser humano.

A internet é boa ou má para a democracia?

Pierre Lévy, grande estudioso e entusiasta da cibercultura, acredita que a internet pode propiciar uma inteligência coletiva e viabilizar um avanço da democracia, através de ferramentas digitais. O caso da Islândia, em que a população utilizou a internet para escrever a nova constituição, pode mostrar que Lévy está no caminho certo.

No entanto, estudiosos, como os citados na última coluna do Grego, apontam que os algoritmos têm gerado mais efeitos perversos que positivos, além dos já citados ódio e bolha, há a proliferação das fake news, que sem nenhum controle invadem e geram muita contrainformação.

Vítima e algoz

O jornalista Reinaldo Azevedo, que trabalha em grandes veículos de circulação nacional, é constantemente vítima de ataques de muitas vertentes políticas. Ele cunhou duas expressões que se tornaram conhecidas, acerca de dois grupos dos quais, hoje, ele mesmo é vítima: os petralhas (uma clara associação dos petistas com os irmãos metralhas) e a direita chucra. Embora seja vítima de ofensivas ultrajantes, o mesmo também ajudou a contribuir no fomento ao ódio, quando passou a generalizar e ridicularizar os grupos com esses infelizes apelidos.

O que fazer?

Como escapar de ser constantemente sugado para a bolha de pensamento único? Como conceber visões diferentes? Como ouvir os dois lados, já que o estímulo é todo voltado para pensar igual ao seu grupo social? A solução não é nada simples, mas é viável, trata-se da leitura sistemática, não preguiçosa e esforçada, de duas ou mais visões sobre o mesmo fenômeno. Para que a síntese do conhecimento ocorra, deve-se buscar fontes de conhecimento de origens diversas.

Há também de se ressaltar a importância da leitura dos clássicos, de textos que, primeiramente ou de forma muito original, pensaram em determinada problemática. Por isso, cito como indicação a leitura de um livro que defende essa visão de livre expressão, tão necessária à democracia. Trata-se da obra A democracia e seus críticos, de Robert Dahl.

Democracia

Uma justa homenagem e um exemplo

Estava no início de minha vida acadêmica (cerca de 15 anos atrás) e recebi um convite de uma amiga de meus pais para ter acesso a livros que pudessem contribuir em meu conhecimento, como forma de estimular os estudos. Ganhei muitos livros, alguns dos quais ainda guardo em minha estante e são constante fonte de consulta. A doadora em questão só me deu um conselho, que foi em síntese, o que trouxe a ideia para a abordagem desse assunto: “Leia tudo, de direita e de esquerda. Não leia apenas aquilo que lhe agrada, busque ler autores que pensam diferente de você, só assim você poderá ter posições maduras sobre os problemas humanos”.

Infelizmente, essa amiga não está mais entre nós, mas fica aqui a singela homenagem a uma conhecida mestra de Rio do Sul: Ilse de Andrade, professora com longa trajetória educacional em nossa região e que com certeza, de onde estiver, ficará muito feliz com esse texto.

 

*Gregório Unbehaun Leal da Silva
– gregoriosilva1986@gmail

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