Como pensam os que não votam em Lula e Bolsonaro?

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No texto de hoje falaremos do mesmo tema de nossa coluna anterior, o voto para presidente. Vamos analisar outra pesquisa sobre o tema, trata-se da pesquisa Ibope, encomendada pela Revista Piauí, que mostra: quem não deseja votar nem em Lula nem em Bolsonaro soma 43% do eleitorado. Claro, esta é uma pesquisa que apenas aponta para o momento, inclui os votos brancos e nulos e não analisa o impacto da possível não candidatura do ex-presidente.
Nosso foco, no entanto, incidirá sobre as descobertas dessa pesquisa em relação a como pensam esses 43%, já que não desejam votar em nenhum dos dois líderes das pesquisas e representam uma significativa porcentagem do total.
Os dados da pesquisa demonstram que esse eleitorado costuma decidir seu voto muito próximo da eleição, que não tem fidelidade a nomes e sim a ideias difusas ou perspectivas futuras.
Desses 43%, a grande maioria ainda não sabe em quem votar, 60% são mulheres, tem carga horária maior que oito horas diárias, a maioria está em centros urbanos do Sul e Sudeste e 66% tem mais de 35 anos.
Os mesmos se dizem não consumidores de notícias de política, por falta de tempo ou interesse. São chamados de “nem nem” (nem Lula, nem Bolsonaro). Essas pessoas são muito voláteis na hora de cravar em quem vão votar e podem mudar o voto até na última hora. Isso, obviamente, dificulta muito o marketing político. No entanto, são para essas pessoas que o marketing político mais se voltará e são elas que, possivelmente, decidirão a eleição.
Os exemplos da força dessa mudança de voto são a eleição presidencial de 2014.Na última semana antes do fim do primeiro turno, a intenção de voto em Marina Silva despencou e o voto em Aécio Neves subiu, grande parte desses indecisos trocou Marina por Aécio, devido ao marketing. O mesmo fato se repetiu na eleição da Prefeitura de São Paulo, em que João Dória conquistou esses eleitores, reduzindo a pó a candidatura de Russomano e vencendo no primeiro turno.
O grande problema dos “nem nem” é que, apesar da convicção de não quererem votar nem em Lula e Bolsonaro, não têm pressa e nem vontade de definir seu voto agora, muitos não se interessam , não acompanham e pouco sabem o que está acontecendo. O caso relatado em uma matéria do site da Revista Piauí é um ótimo exemplo de como é difícil entender a cabeça desses eleitores. Confira um trecho:
A poucos dias da votação, a disputa pela Prefeitura de Caruaru, no Agreste pernambucano, seguia apertada. Três nomes chegavam com chances às vésperas de as urnas eletrônicas serem ligadas. Tony Gel, do PMDB, liderava com intenções de voto suficientes para ir ao segundo turno mas não para se eleger de cara. Dois neófitos disputavam a chance de enfrentar o ex-prefeito. Poucos votos para um ou outro decidiriam quem passaria ao turno final.
Contratado pela campanha da tucana Raquel Lyra, Moura gastava horas assistindo a grupos de pesquisa qualitativa formados por eleitoras “nem nem”. Testava propostas, projetos e – como os marqueteiros gostam de dizer – narrativas que sensibilizassem esse eleitorado fugaz e indispensável. Passava e repassava programas eleitorais na tevê, mostrava vídeos com debates e entrevistas da cliente. Nada funcionava, nenhuma conexão se estabelecia entre a candidata e a eleitora que ela buscava.
Alheia ao que Lyra dizia na tela, uma das mulheres de um dos grupos de pesquisa reparou algo na vestimenta da candidata:
– Aquele lacinho cor-de-rosa… É do Outubro Rosa, não é?
– É, da prevenção ao câncer de mama – respondeu outra.
Um “legal!” ecoou, quebrando o enfado que dominava a sala.
Raquel Lyra não tirou mais o lacinho do peito. Teve 3 674 votos a mais do que o terceiro colocado – dois pontos percentuais de vantagem. No segundo turno, bateu Tony Gel e ganhou a prefeitura. Impossível garantir que foi o símbolo do Outubro Rosa que laçou as eleitoras “nem nem”. Mas, sem elas, é improvável que a atual prefeita estivesse ocupando a cadeira.
Parte desses 43% opta no momento final pelo voto útil, escolhe muitas vezes votar naquele que tem mais chance de ganhar. Durante a campanha, candidatos considerados de centro-esquerda e centro-direita, como Gerado Alckmin , Luciano Huck, Marina Silva e Ciro Gomes, em seus programas eleitorais e debates, quando atacarem as candidaturas de Bolsonaro e Lula, terão como objetivo atingir esse público.
Há de se apontar ainda que essas pessoas devem ser as mais atingidas pelas fake news, são mais suscetíveis por não consumirem notícias sobre política. É dentro desse público que mais ocorrerá a junção de palanques, ou seja, muitos desses eleitores não sabem em quem votar para presidente, mas já escolheram o governador e, nesse caso, o governador puxa o voto para presidente.
O mesmo pode acontecer com prefeitos nos quais votaram na eleição de 2016, deputados estaduais e federais, que fazem mais campanha na rua e podem conseguir, através de seu público, atrair eleitores para a eleição presidencial.

 

*Gregório Unbehaun Leal da Silva
– gregoriosilva1986@gmail

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